Continuação de imagens de Fonte Arcada 

 

Fonte Arcada 
 


É hoje uma freguesia do Concelho de Sernancelhe, com marcas de antiguidade e de tradição. Integra a comarca de Moimenta da Beira. Pertence ao distrito de Viseu e à diocese de Lamego. 10 quilómetros, por estradas municipais de bom traço e piso, ligam à sede do Concelho esta progressiva freguesia, situada no extremo noroeste do mesmo. Tem uma população de 265 habitantes em 144 fogos e 320 eleitores.

                          

No termo de uma nova e serpeada estrada marginal ao Távora, surge implantada a freguesia de Fonte Arcada. Vem-lhe o nome da fonte em arco ogival que se encontra no sítio da Toca da Moura, evocando a filha de árabes que ali se esconde, lacrimeja a sua triste sina e guarda fabulosos tesouros, consoante a lenda em que muitos fazem fé. Fernando C. Quintais, afirma que “o nome de Fonte Arcada contém na sua estrutura uma espécie de chave cifrada, na melhor tradição da alquimia espiritual da Idade Média, que recebe o seu influxo de outras civilizações, mais remotas como as do Egipto e da Babilónia”. E acrescenta que “é fonte de vida, pela água, e é Arca(da), isto é, oculta um mistério, tal com a Arca da Aliança”. Efectivamente o local é convidativo em termos de reflexão espiritual e da elucubração poética.

O monumento, que é do século XII ou mesmo do seguinte, de arco apontado e de abóbada tradosada, sobrepõe-se certamente a outro de maior antiguidade que, em tempos mais remotos, terá acompanhado o alvor e desenvolvimento desta antiga vila.

O largo da fonte é sombreado por nogueiras e castanheiros e é assoberbado por cômoros arrelvados que se sucedem, de modo que se forma ali um agradável espaço adosselado.

                          

O monte do Castelo que nem é monte nem tem castelo, exibe uma pequena eminência saliente coroada e cintada de verdura, onde se levanta a torre do Relógio, que, alterando-se acima do povoado, o parece dominar.

Mas a mole compacta e desalinhada da sua casaria de tipo regional, com um tom misto de cinza e amarelo, assenta uma larga depressão, a poente, aos pés duma encosta acidentada e sobrepõe-se ao Távora que passa lá ao fundo na mansidão ronceira de quem tem preguiça de caminhar. Uma extensa garganta de hortas e campos verdejantes, ladeada por onduladas encostas encobertas de vegetação arbórea e arbustiva, forma a almofada declivosa que separa o povoado da riba do rio. Do alto da Senhora da Saúde vislumbra-se um panorama ao mesmo tempo soberbo, e entrecortado de montes e vales, estradas e casaria, verde e agreste, cerros e pradarias. É a zona da Lapa, de Caria, de Cabaços e S. Torcato, do Monte Gordo, das Fontaínhas…

Não é povoação serrana que alguns pretenderam descrever em tempos idos. Dentro do seu antigo alfoz, Escurquela e Macieira estão em lugares mais agrestes; Ferreirim e Freixinho repousam e desenrolam-se em assentos mais amenos.

                          

Topam-se sepulturas antropomórficas no Marmeleiro e no Verdogal. Sendo uma terra de remotas tradições, não possui, apesar de tudo, no entender do insigne Abade Vasco Moreira, vestígios arqueológicos que permitam colocar-lhe a origem para lá dos tempos proto-históricos. Existia no período de ocupação Muçulmana, em que sofreu devastação e ruína, de que ressurgiu por acção reconstrutora de D. Sancha Vermuiz, dama nobre e rica, que viuvou de um opulento e abastado fidalgo de Entre Douro e Minho. Foi ela e seus filhos quem, no reinado de D. Sancho I, lhe deu foral em 1193, ficando a localidade com o estatuto de Vila e Concelho. Os autores que optam pelo ano de 1231 para a localização temporal da carta de foral, estão possivelmente a cingir-se à época de César.

                                            

Certo é que já no século X, mais propriamente em 960, o testamento de D. Flâmula a menciona, crendo-se que Fonte Arcada tenha depois sido honra de Egas Moniz e sua mulher, dos quais passou para honra de Soeiro Viegas, que a doou a sua mulher e sua mulher a D. Sancha Vermuiz.

Mas, já em 1179, é referida a sua existência, pois nessa data Egas Gonçalves legou bens à Sé de Lamego, sendo Bispo D. Godinho Afonso.

                          

Foi senhor de Fonte Arcada Fernão ou Fernando Sanches, o predilecto filho bastardo de D. Dinis, a quem este seu pai a doou, em 1239, com outras terras confiscadas, ainda no reinado de D. Afonso II, a Pedro Anes, almoxarife em Lisboa. Por isso, é que D. Dinis autorizou, em 1297, a troca da Igreja de Fonte Arcada, dos monges de Salzedas, pela de S. Pedro de Tarouca, que antes era de Fernão Sanches.

Por morte do bastardo de D. Dinis, sem descendência, vagou Fonte Arcada em favor da Coroa. Terá, entretanto, sido seu Senhor o Infante D. João filho de D. Pedro I e de D. Inês de Castro. Em 1401, D. João I, deu-a a Gonçalo Vaz Coutinho, alcaide-mor de Trancoso e Senhor de Leomil. Encontra-se, em 1470, na posse de D. Francisco Coutinho, sei descendente. Foi D. Afonso V, o Africano, que lha deu, em Santarém, juntamente com Sernancelhe, em 20 de Maio, em reconhecimento pelos serviços prestados em África por seu pai e seu tio.  Passou por herança a ser perteço de D. Fernando, filho de D. Manuel II e da Rainha D. Maria por se haver matrimoniado com a menina sem dote. D. Guimar, filha do Conde de Marialva. Mais tarde, passou para a família dos Castros, Foi seu quinto Senhor um deles, D. Álvaro Fernandes de Castro, filho de D. João de Castro, quarto vice-rei da Índia. D, Pedro II elevou Fonte-Arcada à categoria de Viscondado, cabendo a posse da mesma e o título de visconde (com a promessa do título de conde, promessa que nunca foi cumprida) a Pedro Jacques de Magalhães, que derrotara heroicamente o conde de Ossuna na batalha de Castelo Rodrigo. O viscondado e o título de visconde extinguiram-se com o quarto visconde de Fonte Arcada Pedro Jacques.

Além dos funcionários municipais – Juiz, Escrivão, Tabelião e Almotacéis – tinha, no tempo de D. João V, Capitão-mor, Sargento-mor e duas companhias de ordenanças.

Em termos do ofício e do benefício eclesiástico, era tão importante esta freguesia que chegou a ter por abade, em 1385, durante o episcopado de D. Lourenço, a Fernão Martins, cónego da Sé de Lamego e sobrinho do Bispo D. Durão (ou Durando).

                          

O núcleo urbano antigo, de imponência singular e de invulgar vetustez, dá a esta localidade o arcaboiço de aldeia-museu e contrasta bem com o rol de construções que a modernidade, secundada pela corrente migratória acrescentou à malha residencial. Tem, pois, a zona antiga a morgologia de um reticulado homogéneo em instalações de meia encosta. Releva um casario típico de granito amarelado de boa cantaria, onde contrastam harmonicamente maciços balcões de pedra com airosas varandas de madeira.

      
                       
 

  Continuação de imagens de Fonte Arcada