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Fonte Arcada  - continuação
 


Apesar de haverem entrado em acentuado declínio as velhas casas solarengas, esta freguesia atingiu alto grau de prosperidade, como atestam ainda os vestígios patentes em seus monumentos e solares.

Albergou dentro de seus muros gente da mais alta estirpe, como os Coutinhos, Coraças e Gouveias, como pode orgulhar-se de ter acolhido sob os seus tectos o fundador da Nacionalidade, que, bem perto e dentro do seu termo, nas margens do Távora, derrotou os mouros – vitória que resultou por voto do rei a fundação do Mosteiro de S. João de Tarouca.

                          

Os limites do concelho de Fonte-Arcada eram os das actuais localidades de Sernancelhe, Caria, Tabuaço e S. João da Pesqueira. O concelho, que manteve a sua autonomia por sete séculos, compreendia as freguesias de Fonte-Arcada (a sede), a de Freixinho, a de Ferreirim (que chegou a denominar-se Ferreirim de Fonte Arcada), a de Macieira, a de Escurquela, a de Chosendo e a de Vilar. Chegou a incorporar, se bem que por pouco tempo, a vila de Guilheiro.

Atingiu o apogeu da importância política e social no século XVII. Foi nessa altura que se levantaram os melhores solares e se repararam, recuperaram ou redimensionaram os seus monumentos de origem românica. A fonte, a igreja, a ponte, a casa do Paço…

                          

O concelho foi extinto em 24 de Outubro de 1855, por obra da reforma administrativa do liberalismo, perdendo Fonte arcada a categoria de vila e de sede do concelho. Passou a integrar, primeiro o município de  Trancoso, e depois, como todas as suas freguesias, excepto a do Vilar (que se agregou a Moimenta da Beira), o município de Sernancelhe, como actualmente.

Refere o Abade Vasco Moreira que o segredo da prosperidade desta vila reside na sua autonomia administrativa, na boa administração ao seu município e na fecundidade e riqueza do solo que, através do trabalho persistente, lhe dá aquilo de que mais precisa para a subsistência e para o desenvolvimento.

                          

Dando uma volta auto-instrutiva pelo aglomerado populacional, encontramos várias curiosidades:

O solar dos Condes da Azenha, de torres quinhentistas, sobranceiro ao largo que se designa impropriamente de adro, mantém as sua armas num pórtico já descaracterizado, não se vislumbrando mais nada do que poderia atestar a rota da antiguidade. Nem a Casa das Couraças nem a Casa dos Brigadeiros (esta com a peculiaridade do pórtico imponente, com brasão de família, ladeado de muros com ameias), reflectem com suficiência a grandeza do passado.

 O pelourinho de Fonte Arcada, em acanhada praça de hoje, é o símbolo da identidade municipal da autarquia que ganhou poder e o alimentou até ao advento do liberalismo e perdura qual testemunha qualificada e eloquente da importância histórica e política da terra que foi anos e anos sede de um notável município beirão ao qual o foral de 1193, consignou as liberdades de estilo e impôs as obrigações adequadas.

                          

 A Torre do Relógio, doinarosa torre sineira, no alto do cerro do castelo, remomora o último quartel do século XVI e as assembleias de notáveis que se desenrolavam na casa da câmara, quando o sino daquele campanário convocava, tangendo e sonando.

Uma das mais típicas edificações de Fonte Arcada e redondezas é a Casa do Paço ou Casa da Loba como é vulgarmente denominada e conhecida. Do paço, por ter sido de D. Fernando; da loba, devido ao busto de cachorro ou loba que ostenta na frontaria, Fantasmagórica volumetria granítica, erecta entre a Praça do Pelourinho e o Largo da Igreja, é obra do século XIII e propriedade de Fernão Sanches, o já mencionado filho bastardo que foi de D. Dinis. Muitos outros senhores a possuíram e modificaram no século XVI e subsequentes. Serviu também de Casa da Câmara.

 A Igreja Matriz é jóia de estimado valor, de fundação românica, mas com alterações ditadas pelo devir multissecular, espraia-se por três patamares desnivelados de sentido ascendente até à capela-mor.

                          

Entre as muitas capelas, salienta-se a capela de Nossa Senhora da Saúde, centro de singular devoção, onde se destaca a romaria-festa no terceiro Domingo de Páscoa (segundo Domingo depois da Páscoa, de acordo com a nomenclatura anterior à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II). A capela é de arquitectura muito simples, provavelmente da transição do século XVIII para o século XIX, mas reveste-se de enorme funcionalidade, quer para a romaria de exteror quer para a de interior a circundar ao altar-mor. O espaço envolvente é enorme.

                          

A aldeia dispões de todas as infra-estruturas que a dotam de condições físicas e sociais que respeitam os parâmetros por onde modernamente se pauta a qualidade de vida, designadamente: água domiciliária, saneamento básico, electrificação de casas e ruas, ruas drenadas e calcetadas, Centro Social e Paroquial (com apoio aos idosos e às crianças), sede de Junta de Freguesia, Jardim de Infância, Escola do 1º ciclo…

Mesmo assim e para que Fonte Arcada continue a pontificar, e com justo merecimento, - após a construção de uma sede de Junta de Freguesia muito funcional e arquitectonicamente bem enquadrada, a par de um confortável polidesportivo e com um Centro Social Paroquial a desenvolver com notória proficiência diversas valências de acção social – a Câmara Municipal de Sernancelhe encomendou atempadamente o Plano de Pormenor de Fonte Arcada. Este importante instrumento de planeamento e gestão já entrou em fase de execuçãp e vai guindar esta pitoresca aldeia, carregada de história e de antiguidade, a centro rural de um núcleo de freguesias com centro histórico, designadamente Fonte Arcada, Ferreirim e Freixinho.

                                          

 

Texto:
Abílio Loudro de Carvalho
Da Varanda do Távora – página 163
Sernancelhe na Marcha da Corrente
Edição Câmara Municipal de Sernancelhe 2002
 

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