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Carregal 

   
                   
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
Quem sobe de Adebarros para o sul, por íngreme ladeira, fortemente acidentada de socalcos e barrancos, semeada de restos de pinheirais que os incêndios de verão dizimaram, deixa-se extasiar por uma paisagem carregada de marcas de vendavais frequentes e das nevadas das invernias rigorosas. E vê a urze namorando os sargaços a espreguiçar-se lânguida ao lado de negros blocos graníticos. Chegado ao plaino alto e sadio, depara com a povoação de Carregal, a uns onze km a oeste do concelho. Hoje já não tem de atravessar as “veredas turtuosas” ou “os caminhos torcicolares” de antanho.

 

A chã em que repoisa, própria para cultura de cereais, vinha e fruteiras, contrasta, pela sua quase imensidão e amenidade, com o quadro Montesinho que a rodeia. O rio Aviasca, aqui muito pobre de águas por se encontrar ainda muito perto da nascente, perfila-se numa travessia serena e mansa para se precipitar abruptamente rumo a Adebarros, de onde prossegue sua marcha, por campos verdes e aprazíveis, para o Távora, onde entronca junto à Faia.

 

Os arredores de Carregal, de grandeza rústica e de matriz selvático, eram de pingheirais extensos, lombas de vegetação arbustiva, ravinas cavadas que forma sulcadas pelas correntes de água, por vezes torrentosas, que descem das montanhas vizinhas. O horizonte próximo é composto pelas dobras da Serra da Lapa e da Serra da Nave, enquanto para norte, em pleno inferior se estende o ledo vale que, explorando as terras de serrania pobrinhas, as apelida ironicamente de “Terras do Demo”, no dizer apropriado de Mestre Aquilino, que aqui, nesta aldeia, viu o sol da vida. É neste vale de terrenos fecundos que assentam as povoações ribeirinhas do Távora.

 

O casario era pequeno, mas tinha sabor português, tipicamente regional, agora acrescentado das marcas da modernidade que advém sobretudo da labuta de muitos por outras terras do todo nacional e estrangeiro.

Nada nos permite inferir da sua inquestionável antiguidade. Pelo contrário, tanto o nome da freguesia com as habitações domésticas com ainda a data da edificação da Igreja Paroquial (1545) dedicada ao Divino Espírito Santo, fazem pensar que se trata de uma das povoações de nascimento mais recente do concelho, talvez logo a seguir a Lamosa e a Lapa. Terá resultado a paróquia do desmembramento da de Santa Maria de Caria.

Alguns dos lugares do termo da actual freguesia aparecem, já no século X, como fazendo parte da honra de Egas Moniz e de Mem Moniz, cujos descendentes fizeram doações à Ordem do Hospital (no século XIII).

Pertenceu senmpre ao concelho de Caria, até que, depois da sua extinção em 1855, foi incorporado no de Sernancelhe, com a mesma vila de Caria.

Por volta do ano de 1500, quando a sua população era ainda diminuta e o povoado muito estreito, foi seu donatário Álvaro da Costa, que deu algum impulso ao seu crescimento.

No século XVIII, aparece como vigararia da apresentação do Ordinário Diocesano, no termo de Vila da Rua ou Caria de Jusã.

Em meados do século XIX, o pároco de então anotou num dos livros do Registo Paroquial, conforme a referência do Abade Moreira, o seguinte:
”No dia 18 de Julho de 1858 achei um título pertencente à família dos S.res Paulinos, que mostra ter ido edificada a igreja paroquial, no ano de 1545, pelo donatário Álvaro da Costa e mulher Maria Rebelo, fidalgos moradores que foram neste lugar. Era nesse tempo Bispo de Lamego o Sr. D. Agostinho. E para constar fis esta lembrança. Carregal 18 de Julho de 1858. O Vigário collado José Teixeira Dias”

Não contente com e edificação da igreja, o donatário fundou na povoação uma Misericórdia, que dotou de rendas bastantes para subsídios a muitos pobres. Tal Misericórdia venceu mesmo as malhas que os liberais urdiram em torno das obras de benemerência eclesiástica.

         

Esta freguesia tem uma população global de 510 habitantes, repartidos por 205 fogos, e 630 eleitores. Abrange dua povoações anexas: Forca, a nacente; e Tabosa (Tabosa, do Carregal, só para distinguir de Tabosa, da Cunha), a poente.

Texto:
Abílio Louro de Carvalho
Da Varanda do Távora – página 189
Sernancelhe na Marcha da Corrente
Edição Câmara Municipal de Sernancelhe 2002
 

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