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  Lendas de Carácter Histórico

                                                            D. Dinis e Adão
Numa tarde quente de Junho, chegou a A-de-Barros o rei D. Dinis e foi descansar a casa do tio Adão, que era a melhor, por o seu dono ser o homem mais abastado da povoação.
Vestido de burel e calçado de tamancos, recebeu o monarca  e séquito com a franqueza típica do homem do povo beirão. O rei pediu água que o lavrador prontamente ofereceu em valiosa taça de prata. O camareiro real tentou impedir o lavrador de prestar este serviço, por suas mãos, ao soberano por a pragmática da corte o vedar. Porém o lavrador teimou em querer levar ele próprio a água a Sua Majestade: ele era o dono da casa, perante quem cediam todas as etiquetas. O rei, ouvindo a altercação e dando conta da causa da mesma, determinou que o lavrador o servisse como era seu desejo, e bebeu a água com grande satisfação. Na verdade, a água desta localidade era a melhor das Beiras. Depois de beber, o rei perguntou ao generoso e dedicado arquitriclino:

       -Desde quando sois fidalgo?
       -Desde Adão, Real Senhor! - respondeu o homem
       -Então a vossa nobreza é mais antiga que a minha?!
       -Não, Real Senhor, porque Adão sou eu.

Gostou muito o rei desta chalaça e deu-lhe para si e descendentes o foro de fidalgo da casa real. E desde então os primogénitos dessa família ostentaram todos o nome de Adão, recordando assim o memorável episódio e desafiando galhardamente todos os caprichos do tempo.

 

                                                        A Lenda do Rei Chiquito
 A Quinta da Alagoa (com a casa da Torre), hoje servida pela corrente eléctrica e obrando uma agricultura mecanizada, mantém a ruína vestigiante de uma lenda que se conta do Rei Chiquito.
Segundo uma lendária tradição, terá nascido aqui o Rei Chiquito. Era um homem fogoso e turbulento, um político exaltado e dado a discórdias. Quando os beleguins o quiseram prender, assaltaram a casa, mas ninguém encontraram que pudessem prender. Afastados e já longe, ouviram bradar duma janela: “Rei Chiquito já cá está, quem quizer que volte cá”. E voltaram, mas nada! E o jogo das escondidas repetia-se, sem que a personagem alguma vez caísse nas mãos dos esbirros. Conta-se que a razão de tal ocultamento reside num túnel de 150 metros de comprimento que o proprietário construíra para refúgio que ia dar a um soito e donde ele podia observar as diligências das buscas.
Conta-se que ainda o rei de Portugal, ao passar, se hospedara na casa de Rei Chiquito e se admirara de este viver num pobre tugúrio. Rei Chiquito comprometeu-se a construir uma casa grande e decente para hospedar o Rei de Portugal, enquanto este se demorasse pela Beira. Tal proeza inusitada aconteceu, durante os magros três meses que o rei andou por estas bandas. Ao passar novamente por ali, ficou estupefacto com o empreendimento ricamente construído em tão pouco tempo. Rei Chiquito respondera que assim acontecera com auxílio de belzebu.
Passou Rei Chiquito a morar na mansão construída para receber o Rei de Portugal e outra fã lá ficou para memória, como palheiro, dentro da vasta quinta, encostado a um alto muro. A nova casa, espécie de pequenino convento, é espaçosa. Tem um claustro ao centro, mas sem arte digna de nota.
A lendária Casa da Torre está muito próxima do local onde existiu o cippreste que servira de refúgio a Diogo Lopes Pacheco, o Senhor de Ferreira de Aves, que ali chegara de Coimbra, prófugo em resultado da perseguição que D. Pedro I movia aos algozes de Inês de Castro, a cujo número o fidalgo pertencia.
 

 

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