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  João Fraga de Azevedo                                                                           Texto: Dr. Fraga de Azevedo
 

Sonho que se torna realidade. Evocação das minhas recordações. Os primeiros tempos da minha vida. A data da proclamação da República Portuguesa. A minha infância e o ambiente familiar em que vivi. A cultura e a formação literária de meu pai. A inteligência privilegiada de minha irmã. O ensino liceal e os seus ensinamentos.

Em 5 de Janeiro de 1976, justamente no dia correspondente ao septuagésimo aniversário do meu nascimento, tomei a deliberação de dar a conhecer a forma como tem decorrido a vida cientifica, pedagógica e cultural que me competia realizar, satisfazendo assim a obrigação moral que sentia sobre mim, quanto à maneira como exercera a actividade profissional dos diversos domínios em que tive ensejo de manifestar a minha maneira de existir, de ser e de actuar. Foi em 1929 que concluí o meu curso na Faculdade de Medicina de Coimbra e, a partir daí, jamais deixei de sentir sobre mim o peso e a responsabilidade da vida que abraçara e em que me encontrei envolvido pela força inexorável do destino. Na verdade, uma vez concluída a formatura a que me abalancei, jamais cessaram as preocupações e os encargos inerentes ao trabalho assim criado pelas circunstâncias da vida, pois, a realização daquela actividade tão expressiva como fora a da formatura em Medicina, constituíra somente, apesar das responsabilidades inerentes a este acto do maior significado, um pormenor apenas de muito menor relevância perante aquele que me estaria reservado pela vida adiante.
Assim, se é certo que os ensinamentos e a formação exigidos pelo curso processado pelo período de seis anos universitários, que tantos foram os que me absorveram na minha formação, não se comparam com os encargos que dai em diante se me haviam de deparar, é fora de dúvida que os problemas, as preo­cupações e os afazeres contínuos que tive de suportar nunca foram sobreponíveis por forma
alguma, em desproporção com os encargos anteriormente realizados para satisfazer as exigências reclamadas pela preparação da Escola, onde encontrei o caminho da vida que me preparara para o futuro.
De facto, no ano de 1923, dei início às minhas exigências e obrigações reclamadas pela formatura em Medicina e, desta forma, decorridos 53 anos de actividade contínua, tenho obrigação de me sentir dotado da experiência necessária para dar conta do que foi o trabalho realizado nesse já longo período de tempo, tornando-se numa realidade um sonho que vinha aca­lentado desde há alguns anos: a publicação das minhas memórias científicas.

Posso marcar como ponto de partida desta ideia o facto de vir acumulando os acontecimentos que iam tendo lugar através do largo período de tempo vivido em todos os continentes, e que me levaram a dar a conhecer a forma como, segundo a minha própria experiência, a Humanidade sempre inquieta se manifestou, conforme o meu conceito, no estabelecimento do con­tacto com o mundo em que vivemos. Tem por isso a devida oportunidade apontar as circunstâncias em que decorreu, em primeiro lugar, o despreocupado período da minha infância, pois, na verdade, só se pode formar um juízo exacto do percurso da vida, depois de passado esse primeiro tempo de existência assim aberto para o mundo.
Passada a nebulosidade dos meus primeiros anos de vida, de onde desfrutei à sombra acalentadora dos nobres e altivos castanheiros e dos esguios pinheiros, brincando com minha irmã, recordo, como primeiro acto de que me apercebi no mundo, a data da proclamação da República em Portugal, em 5 de Outubro de 1910. Este facto nunca mais se varreu da minha memória.
Saíramos de Sernancelhe, onde então residia, para nos dirigirmos a Melo, Gouveia, onde nasceu minha mãe, utilizando como transporte um carro puxado por cavalos, como único meio de locomoção então em uso. Nesse mesmo dia, ao transpormos o arco de acesso às muralhas de entrada para a vila de Trancoso, fomos surpreendidos por uma manifestação calorosa dos habitantes da povoação, festejando ruidosamente e animadamente o grande acontecimento que acabava de ter lugar: a proclamação da República Portuguesa e a des­tituição do regime monárquico no nosso país. Meu pai, associando-se aos manifestantes, deu a conhecer com o maior júbilo essa manifestação, solidarizando-se com a população e, levantando o chapéu, deu «vivas» de imensa alegria em conjunto com o povo que nos envolvia com a maior afectividade. Como convicto republicano que meu pai sempre foi, ficou para sempre gravado na minha memória esse notável episódio que nunca se me apagou na lembrança pela vida adiante. Na verdade, por formação própria e também de acordo com as ideias então nascentes em Portugal, a República era considerada como uma manifestação insuperável, perante os desmandos e os desequilíbrios da forma de Governo que então imperava no País.
Foi assim assinalado o dia 5 de Outubro de 1910 como acto que marcou um pormenor notável da minha própria existência, mas devo recordar, entretanto, que o ambiente que sempre senti através da terra em que passei os primeiros tempos da vida devia ter permitido vir a conhecer pelos tempos

adiante, as características humanas do seu enraizado espírito de solidariedade com que me senti para sempre irmanado no meio em que vivi.
Do lado de meu pai fiquei sempre impressionado e dominado por um límpido e perfeito espírito de carácter, dignidade e justiça, que muito contribuiu, certamente, para formar a noção cívica da vida com que me encontrei sempre solidarizado. A par dessas qualidades próprias de um espírito de inteligência superior e duma mentalidade invulgar, meu pai era também dotado duma cultura, talento e erudição excepciona), cujas qualidades literárias cultivava com a maior elevação, sempre interessadamente, apesar do limitado espaço do meio social em que vivia. Dessa vocação inata dá conta a seguinte alocução redigida com todo o encanto em homenagem a João de Deus durante a solenidade que lhe foi prestada em 10 de Janeiro de 1905 em Moimenta da Beira:
«Aurora a brilhar! . . . esperança a sorrir! ... ao longe . . . em certo lugar do espaço . . . quando em reverbero celeste, esmeraldino, irisado de reflexos de ouro, iluminava uma adorável mansão. Era um Vate que ali nascia. Esta preciosa existência desenvolve-se acalentada por beijos de ambrosíacas carícias.

Recebe o divino influxo da instrução. E logo em torno da sua alma resplandecem, como cintilações ástreas, das mais sublimes ideias. Alonga a vista pelos vergéis de inebriantes perfumes da sua Pátria, e surpreendem-no as formas graciosas e encantadoras das flores.
A candura e os sorrisos das crianças seduzem-no e enter­necem-no ao mesmo tempo.
As suas faculdades impulsionadas para a verdade e para o belo e o coração para a virtude hão-de alcançar o maior triunfo.
E assim é na verdade.
Carece apenas de ser consagrado no mundo da inspiração.


Num soleníssimo momento, de imensa ventura, o seu espirito voa à região do ideal infinito.
No assento rosicler e celestial das musas, entre cânticos de amor e sinfonias de deliciosa harmonia, a sua alma consubs­tancia-se com a da mais formosa filha de

Apoio: eis a iniciação do Vate.
Então da sua lira desfere sons suavemente maravilhosos. São manifestações dos sagrados coros entoados por anjos e querubins no Empíreo augusto.

As suas estrofes, fulgurações da maior elevação intelectual, dos mais santos e puros sentimentos, têm a unção duma lingua­gem excelsa com todos os brilhantes coloridos da Arte: consti­tuem uma obra maravilhosamente perfeita. Revela-se o poeta genial, orginalissimo, eminentemente notável, glória da nação que o viu nascer; poeta das flores, das crianças, do Hino de Amor; Autor da Cartilha Maternal, homem imortal:

João de Deus! . . .

Minhas senhoras e meus senhores:

É com os modestos conceitos, sem elevação de forma nem de idea, que acabo de expor, pois outros não existem na capacidade dos meus recursos intelectuais, que, neste dia de festa dedicado à causa da instrução popular, tributo o meu ferveroso culto de admiração e respeito à memória dum dos mais distintos ornamentos da sociedade contemporânea, ao autor do belo e preciosíssimo adereço da nossa literatura: Campo das Flores.

E comigo estão neste modo de sentir e pensar totícs os professores do círculo escola-- de Moimenta da Beira.

Ao filho ilustre, o Exmo. Senhor Dr. João de Deus Ramos, cuja honra da sua presença tanto nos orgulha, e que, sendo hoje o preclaro brilho do talento, será amanhã o digno continuador da Obra gloriosa de seu pai; o saúdo com a mais sincera homenagem em nome do professorado do concelho de Sernancelhe a quem represento nesta selecta reunião.»

Ao lado de minha mãe tive também ensejo de apre­ciar a ternura, o amor e a afectividade que tornaram o lar em que vivi um recanto da maior elevação e pureza sentimental.
Minha irmã que, infelizmente, muito cedo sossobrou na vida, manteve através duma convivência da maior amizade a mais imperecível recordação. Foi pois, com a mais profunda mágoa e a mais inesquecível tristeza que com a idade de 18 anos, a tivemos de ver arreba­tada, tão precocemente da vida, donde sobressaíam dotes de inteligência excepcional e uma vocação espe­cial pelas suas invulgares aptidões literárias, e de que o trecho seguinte nos dá ideia da elevação de que era dotada, a propósito duma redacção casualmente feita em 15 de Dezembro de 1922 no Liceu de Viseu:

«O sol tomba no horizonte, enviando à terra as últimas notas melancólicas duma vida que se extingue! E a terra chora, perde-se em lamentações plangentes, estorce-se nas convulsões tétricas da sua dor e toma pouco a pouco um manto de crepes sob o qual esconde os soluços oprimidos do pinhal, o carpir incessante do riacho, as lágrimas amarguradas do infeliz!

Em si nada existe senão a saudade duma alegria que desceu ao túmulo e é ela que a sustem até despontar o astro da consolação e do sonho no seio do qual vai descançar enfim!

Já não chora, sorri. Mas o seu sorriso assemelha-se ao do moribundo quando, após uma vida de miséria, entrevê a quietude do sepulcro. Sorri, porque a lua veio beijar-lhe ao de leve as copas dos arvoredos e segredar-lhe entre as caricias dum ciciar subtil palavras de consolação. E tudo na terra corre a abrigar-se sob as asas do luar, sob o manto de tenuíssima gaze onde vai esbater-se a luz feita de meiguice e melancolia que a lua envia à terra nesta hora saudosa do crepúsculo!

Desde a humilde violeta em cujo cálice tremula uma gota diáfana de orvalho, até ao idílio que se abriga sob um céu de glicíneas, desde o amante desolado que entrega o destino às mãos ímpias de um malmequer até ao infeliz que do seu leito de angústias envia ao mundo um derradeiro adeus, por
todos a lua derrama a suavidade dulcíssima que é o seu apanágio.

Nestas noites, em que ela brilha na plenitude das suas graças inefáveis, comunicando a todos os espíritos um pouco do mistério de que se envolve, idealiza-se o paraíso porventura mais belol

É que a imaginação arrebatada nas asas célebres da fan­tasia adeja pelo espaço e animada de compreensão sobrenatural entrevê para além do céu azulino um mundo ideal de sonho e amor em que só a alma tem o direito de entrar.
E assim as horas vão correndo sem que o nosso espirito envolto nas quimeras do pensamento se desprenda dos encantos duma noite de luar.»

Considero assim da maior importância os ensina­mentos que fiquei devendo ao ensino liceal , pelas aquisições adquiridas num período que marcou na vida da minha formação mental, e que ocorreu numa fase crucial, que era a da adolescência, pois é nesse período da vida que se evidenciam as qualidades supe­riores morais, de inteligência e de carácter, através dos ensinamentos adquiridos no Liceu antes do ensino universitário. É, na verdade, nessa época da vida que se adquirem verdadeiramente as qualidades marcantes que hão-de modelar o homem fundamentalmente pela vida fora, definindo a mentalidade e o futuro que lhe estará reservado.

Durante este tempo cruciante da minha adolescên­cia, recordo-me sempre, porém, dos devaneios e nebu­losidade em que iria constituir a minha formação fun­damental e, assim, é-me oportuno evocar o entusiasmo com que participava nas reuniões dirigidas pelo cónego Barreiros, instalado justamente num edifício dum local histórico da antiga fortaleza da cidade de Viseu, próximo do Largo da Hera, e onde eram discutidos problemas do maior interesse, como o que me foi dado apre­sentar, com a maior ousadia, sobre o complexo e discutidíssimo problema da «Origem do Mundo», cujas suscitações filosóficas me preocupavam então grandemente.

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