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   Aquilino Ribeiro e "Romarigães"
 
 
 
Personalidade marcante da vida cultural de Paredes de Coura, Aquilino deixa a sua memória impregnada num dos marcos arquitectónicos concelhios, a Casa Grande de Romarigães. Ver prefácio do livro: "A Casa Grande de Romarigães" de Aquilino Ribeiro.



O solar e quinta que inspiraram Aquilino Ribeiro para escrever a crónica romanceada de um Morgadio Courense têm um interessantíssima história que resumidamente se pode relatar da seguinte forma: - dos Meneses de Montenegro passou, por arrematação judicial, para o Par do Reino Conselheiro Miguel Dantas. Por herança deste, foi para o genro Bernardino Machado, Presidente da primeira Republica e, pela mesma forma, para Aquilino Ribeiro, casado com uma filha daquele.



Na 10ª edição de "A Casa Grande de Romarigães", Ed. Bertrand, 1999 existem alguns comentários a este Grande Personagem da Literatura Portuguesa, Aquilino Ribeiro. Um destes comentários refere o seguinte - "Aquilino quase parece fazer excepção a essa regra, porquanto, ao surgir, por um triz que não deu logo a impressão de alguém que fizera a sua evolução a coberto dos olhos do público. Dir-se-ia que, por pudor, não quisera aparecer, antes de se considerar sui juris. Com efeito, o escritor da Casa Grande de Romarigães estava quase inteirinho na obra com que fez a sua estreia literária diante do mundo: o génio da prosa plástica ao serviço do descritivo, a eufonia verbal, a atenção ao rústico e à cidade, tudo que hoje admiramos nele, já muito se entreadivinha no Jardim das Tormentas, o seu jacta est alea numa das mais brilhantes carreiras literárias em língua portuguesa, de aquém e de além-mar.
Sendo um nababo do vocabulário, ele só por si uma orquestra inteira, Aquilino não é, todavia, um retórico, no sentido pejorativo desta palavra. Só por excepção não torce o pescoço à eloquência postiça, aquela que constantemente dobra o sino grande da ênfase." (Henrique Fortuna, Voz do Sul)
 

 
 


AQUILINO RIBEIRO

A História da Casa Grande, a razão de lá existir a memória ancestral



Aquilino Ribeiro no prefácio que escreveu para a obra "A Casa Grande de Romarigães" refere onde se baseou a sua obra, será esta passagem que iremos apresentar, em seguida.

   
 

 
  "Quando se procedeu ao restauro da Casa Grande, que foi solar dos Meneses e Montenegros, houve que demolir paredes de côvado e meio de bitola em que há um século lavrava a ruína, ocasionando-lhes fendas por onde entravam os andorinhões de asas abertas e desníveis com tal bojo que a derrocada parecia por horas. Num armário, não maior que o nicho dum santo, embutido na ombreira da janela, que a portada, em geral aberta, dissimulava atrás de si, encontrou-se uma volumosa rima de papéis velhos. Como Cide Hamete Benengeli, não posso ver um farrapo impresso que não se me sobressalte a curiosidade. Com avidez fui tirando para fora cartapácios sem frontispício e sem índice, entre os quais um Mestre de Vida que ostentava uma dactiloscopia densa e salivosa, com os cantos das folhas tenazmente arrebitados, avisos e recibos da contribuição predial, uma resma de bulas da Santa Cruzada de pinto e de doze vintéis, receitas de botica, algumas traindo pelo sebo e a usura terem sido aviadas amiúde, folhinhas de anos sucessivos, e uns cadernos de papel almaço em que me palpitou matéria de bisbilhotice. Um deles, (...) Livro que há-de servir ao assentamento das cisas notáveis que assucederem na Casa Grande de Romarigães, também chamada Quinta de Nossa Senhora do Emparo. Com um epítome da origem, fundação, sítio e nobilíssima árvore de seus morgados, pelo Padre Sebastião Mendrugo, da Casa Cachada, e seu capelão. Ano da Graça de 1680".
Aquilino ao ler este livro perguntou-se "em que nos podia interessar a vida de fidalgos com tantos mais". Segundo ele, "era enternecedora a simplicidade com que o historiógrafo memorava os serões gastos, até altas horas, espírito tendido sobre a pena de pato como o lavrador sobre a rabiça, olhos a doerem-lhe da chama reverberada pelo latão no candeeiro de três bicos".(...)
Aquilino Ribeiro, para além do livro anteriormente referido, encontrou outros, também estes de grande importância.
"O outro manuscrito, em letra especiosamente torneada, chamava-se Vida de D. Luís António de Antas e Meneses, sargento-mor de Milícias e procurador às Cortes de 1828. Ao que se depreendia do estilo, abundante em ciência heráldica e genealógica, era obra dum linhagista do Alto Minho, tão amigo de Deus e do rei como inimigo dos malhados, o senhor Manuel Afonso, de Venade":
"O terceiro caderno tinha ares de copiador. Copiador de coisas e loisas, numa escritura igual, muito indolente e de traços farfalhudos como as caneiras de milho desta comarca frumentosa. Era o vasto repositório duma ciscalhada inominável, anedotas, documentos tabelionares, censuras a livros pelo Padre José Agostinho de Macedo, sinal de que o escriba propendia para literato, e até cartas de amor."
Aquilino Ribeiro, refere que - "as últimas e extravagantes páginas do livro são de minha lavra. Ás outras, sacudi o bolor do tempo e reatei o fio de Ariana, interrompido aqui e além. É escusado dizer que inutilizei muito material, glosas, apostilas, considerações baratas e vagarosas, todas elas a ressumarem uma filosofia de algibeira, incompatíveis com a era de Einstein e dos aviões a jacto":
O autor refere que nunca pretendeu realizar um romance, mas sim uma monografia. (...)"Se me saiu romance, aconteceu-me a mesma coisa que a um triste e tosco carpinteiro dos meus sítios, de quem toda a gente zombava, decerto por milagre desenfadado do Espírito Santo: estava a fazer um gamelo para o cão e saiu-lhe uma viola":
A biografia de Aquilino, que seguidamente se apresenta, reflecte claramente a força anímica que ele tão sabiamente incorpora nas magnificas linhas com que a todos nos presenteou.
 
 
   

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