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Lisboa     ·     07 de Agosto de 2000
Aquilino, a escrita em acção



Eduardo Cintra Torres
Aqui fica uma frase que jornalistas, escritores e demais artistas poderão trazer num cartãozinho guardado na carteira, de forma a não serem tentados a esquecê-la: "que o escritor realize o mundo de beleza que traz em si, e já é alguma  coisa.

 

Quanto ao mais, que seja o que lhe apetecer, desde que não arme em fariseu, e não esteja nunca contra os simples, de braço dado com os trafulhas, nem contra os fracos de braço dado com os poderosos."

A frase é de Aquilino Ribeiro, e foi com ela que José Pacheco de Miranda fechou o seu teledocumentário, a que chamou reportagem, sobre o escritor (RTP2, 04.07).

Ao contrário dalguns programas culturais pretensiosos e emoldurados com uma linguagem gordurosa sobre a grandeza da coisa cultural, este Aquilino manteve uma linguagem chã, uma montagem simples e rimada e ateve-se ao essencial na sua divisão em duas partes: o Aquilino cidadão interveniente da monarquia ao salazarismo e o Aquilino escritor.

O teledocumentário recorreu a depoimentos (Fernando Rosas, Mário Soares, Jorge Reis, Aquilino Ribeiro Machado) de que foram usados extractos judiciosos e instrutivos. Na primeira parte, de que poderia omitir-se a introdução com um longo texto escrito, falou-se do Aquilino homem de acção antes de ser escritor. Preso várias vezes, evadiu-se sempre. Foi bombista, republicano radical. Exilou-se três vezes em Paris. Esteve envolvido na maior revolta armada contra a Ditadura Militar, a de Fevereiro de 1927 (que descreveu exaustivamente num dos seus romances citadinos, O Arcanjo Negro, de 1940, facto que não foi referido no teledocumentário).

Na segunda parte, manteve-se o lugar-comum do Aquilino escritor de incidência rural quando a cidade foi também um barro que usou para atingir os seus objectivos. É certo que a sua prosa e figuras dos meios rurais são mais fortes e superiores literariamente, mas já faz falta estudar-se os seus romances "urbanos" sem o empecilho das comparações. São bons livros. Bem vistas as coisas, que cidade poderia Aquilino usar para os seus romances cheios de acção quando a Lisboa de Salazar era, como pretendia ser, a negação completa da acção. Como admirar-nos que os seus romances citadinos terminem com a morte da oposição republicana em Lisboa? A esta luz compreende-se que Aquilino voltasse ao meio rural e agarrasse cada grande estória que de lá irrompesse: a luta pelos baldios, a febre do volfrâmio...

O teledocumentário de Pacheco de Miranda tinha informação útil para quem se interesse ou venha a interessar pela obra de Aquilino: um bom recurso aos arquivos da RTP e da RDP; a referência à participação na revolta de 1927; o seu particular empenho na literatura infantil; a forma como viveu o exílio e absorveu Paris (muitos exilados apenas lhe arranharam a superfície), interessando-se sem alarde pela vida cultural musical e artística.

O depoimento de Jorge Reis foi nesse aspecto de grande interesse pois permitia dar a conhecer o Aquilino cosmopolita por oposição ao Aquilino que regressa às origens, o Aquilino de Romarigães que nos é sempre vendido com poucas cautelas. O teledocumentário mostrava que Aquilino tinha uma determinação férrea em ser o que queria ser como escritor, e pouco interessava se o barro era urbano ou rural. Só deu ouvidos a si mesmo.

Matisse, pintor que Aquilino admirava, obedeceu ao mote tradicional da sua Flandres francesa natal: "Desiste ou vai-te embora daqui". Matisse foi se embora. Aquilino tinha de cumprir-se em Portugal: voltou sempre, mas cumpriu-se.

Este trabalho de Pacheco de Miranda tem algumas pequenas falhas (era escusada a presença do escultor José Rodrigues, a quem se recomenda especialmente a frase que abre este artigo, e era escusada a banda sonora cheia de sonatas de Beethoven só porque Aquilino as apreciava).

Tem, entretanto, um erro importante, ao fazer-se eco de uma hipótese hoje totalmente afastada: a de que Aquilino seria um "terceiro homem" do Regicídio de D. Carlos. É uma acusação, mesmo hipotética, que o autor deveria ter verificado com a mais recente investigação histórica. Tudo indica que para o Regicídio houve uma conjugação da Carbonária com dois monárquicos despeitados.

Além disso, o entrosamento entre o homem de acção e o escritor poderia ter sido feito no documentário através da obra do próprio Aquilino! "Desde sempre a actividade literária de Aquilino nunca se dissociou da intervenção cívica e da abordagem crítica das várias conjunturas políticas e sociais do seu tempo", escreveu António Valdemar no DN (16.07) - para logo a sua erudição listar as referências literárias de Aquilino aos seus tempos de republicano radical, à iniciação na Maçonaria, à sua vida em Paris, à resistência contra a Ditadura Militar, às suas prisões.

Mas as falhas do teledocumentário de Pacheco de Miranda são todavia largamente compensadas pelas qualidades informativas e formativas do trabalho. Na sua simplicidade, serve de exemplo e era bem bom que houvesse muitos mais documentos como este, na TV e nas escolas.

© 2000 PÚBLICO

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