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Lisboa     ·     29 de Junho de 2000

Espólio de Aquilino fica em Paredes de Coura


BRAGA (Delegação) - O filho do escritor Aquilino Ribeiro, o ex-presidente da Câmara de Lisboa Aquilino Ribeiro Machado, disse ao Correio da Manhã que está disposto a depositar no concelho de Paredes de Coura algum do espólio do seu pai, que ainda possui.

 

Mas para que isso aconteça é necessário que se proceda à recuperação da Casa da Quinta da Senhora do Amparo, ou Casa Grande de Romarigães, como é mais conhecida, o que, para já, não parece muito fácil. Embora a vontade seja grande, por parte da Câmara Municipal e do proprietário do edifício, a verdade é que, diz o autarca Pereira Júnior, "não é nada fácil conseguir os 400 mil contos necessários para a reconstrução desta casa, que é 'apenas' o ex-libris cultural do nosso concelho".

Aquilino Ribeiro Machado garante que, da sua parte, fará "tudo o que for possível para que uma área substancial da casa possa ser adaptada para uma espécie de centro de estudos aquilinianos, onde esses objectos que pertenceram ao meu pai possam ser vistos e apreciados".

Conhecendo-se então a vontade da autarquia e do proprietário para avançar com a recuperação da Casa Grande de Romarigães, só falta saber se o Ministério da Cultura está interessado em financiar "uma boa parte do projecto".

"Pretendemos apenas que o Ministério da Cultura faça com a Casa Grande de Romarigães, que pertenceu a Aquilino Ribeiro, o que fez, por exemplo, com a Casa de S. Miguel de Ceide, que pertenceu a Camilo Castelo Branco", disse Pereira Júnior, que, no entanto, se manifestou convencido de que "este problema vai certamente ser solucionado a breve prazo".

Quanto ao espólio do escritor, ele pode ser visto, até ao próximo domingo, no Centro Cultural de Paredes de Coura, numa exposição paralela ao Congresso de Estudos Aquilinianos, que ontem começou e decorre até domingo, nesta vila do Alto Minho.

São mais de uma centena de objectos, que vão desde a bengala, aos óculos, passando pela carteira, a caneta, o relógio de bolso, a máquina de escrever, o bilhete de identidade, a carta de condução, edições antigas de vários livros, manuscritos e diversos documentos, que pertenceram ao autor de "Quando os lobos uivam".

Jovens devem conhecer a obra

No último dia do congresso, domingo, o escritor vai ser homenageado pela Câmara de Paredes de Coura e, na Casa Grande, o Grupo de Teatro Noroeste vai reconstituir o casamento dos Senhores da Quinta do Amparo. Para esta 'boda à moda antiga', a Região de Turismo do Alto Minho em colaboração com os restaurantes do concelho, recriou os pratos tradicionais da época, segundo a descrição feita por Aquilino Ribeiro no romance 'A Casa Grande de Romarigães'.

Aquilino Ribeiro Machado manifestou-se "muito sentido e emocionado" com a realização desta homenagem, sublinhando que, "por mais que me desprenda e realce a ideia de que sou um admirador de Aquilino Ribeiro, não posso deixar de ter sempre presente que sou filho e tudo o que se faça para lembrar o meu pai toca-me no fundo do coração".

Em declarações ao Correio da Manhã, Aquilino Ribeiro Machado manifestou-se "um pouco triste" pelo facto de a obra de Aquilino Ribeiro não fazer parte dos currículos escolares.

"Se quisermos ir ao encontro das nossas verdadeiras raízes temos de estar atentos àquilo que de mais fundo se transmitiu acerca do povo que fomos e somos. E se houve alguém que falou do nosso povo, dos seus costumes e vivências, foi o meu pai e por isso, o facto de a sua obra não estar presente nas escolas represente, a meu ver, uma grande perda para as gerações futuras", sublinhou.

Apesar de tudo, o filho de Aquilino Ribeiro não culpa o Ministro da Educação por nas escolas portuguesas não se estudar a obra de Aquilino Ribeiro, referindo apenas que "tem havido, nessa matéria, alguma desatenção por parte dos responsáveis governamentais".

                                                                                                                                       Secundino Cunha
 © 2000 Correio da Manhã

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