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Crónica romanceada do Alto Minho

 ANTÓNIO VALDEMAR

A «Casa Grande de Romarigães», em Paredes de Coura, deu lugar a uma das obras-primas de Aquilino, onde recriou o universo rural do Alto Minho com a história e pequena história, o apogeu e a decadência das casas fidalgas.

Era (e é) uma quinta brasonada, junto das cumeeiras da serra de Agra, do monte Calvário e dos penhascos de Rubiães. Permanece na vizinhança da Galiza, que representa a continuidade de «gente de velha cepa» e «sangue retinto de suevo».

Faz parte do remoto couto de Fraião, cabeça de morgadio vinculado no século XVII, envolvido por uma espécie de muralha feudal, já tão diferente da primitiva construção, realizada por mestres de Azurara e Barcelos. Tantas foram as mudanças que, também, desapareceram muitas das alterações introduzidos, no final do século XVIII e início do século XIX, por arquitectos vindos de Pontevedra.


A Casa Grande de Romarigães, em Paredes de Coura, deu lugar a uma das obras-primas de Aquilino Ribeiro, publicado quando o escritor já atingira os 70 anos, mas continuava ainda cheio de vigor e de poder criativo.

 

 É a crónica romanceada do velho solar dos Menezes e Montenegros (arrematado na praça pelo conselheiro Miguel Danta, avô da mulher de Aquilino Ribeiro), que se integra num «grande trato de terras com todos os seus outeiros, arroios, matos e arvoredos livres e aluviais.

Ao mesmo tempo que Aquilino recriou a história e pequena história de Romarigães, procedeu à reconstrução do edifício degradado pela acção do tempo e a incúria de sucessivas gerações. Foi, às vezes, bastante difícil realizar algumas das obras. Júlio Evangelista, que desempenhava, na altura, funções políticas e parlamentares, além da direcção de um jornal diário de Lisboa, conseguiu remover obstáculos burocráticos.

Isto pode confirmar-se num dos dois tomos das memórias de Júlio Evangelista, recentemente publicados, com o título genérico Largo da Boa Viagem. A par das recordações políticas, tem um significativo repositório literário do Alto Minho. Nele se destaca a interessante correspondência de Aquilino, a propósito dos trabalhos para recuperar a mansão senhorial de Paredes de Coura.

Uma das singularidades da Casa Grande de Romarigães reside na abundância de água, que «descia dos cerros por muitos regatinhos, brancos, inocentes e tagarelas». Ainda acerca dessa água, Aquilino recordou do padre Carvalho, no Dicionário Geográfico, que era «a mais delgada e fria do mundo». Mais ainda: «Tem ali, como em nenhuma parte, um timbre especial, de cismar com os montes e a sombra que projectam na vida interior dos homens.»

Logo que chegou o primeiro proprietário da quinta, o padre Gonçalo da Cunha «deu conta da balsa que as águas ao confluir faziam e surpreendeu, fulgurando suas escamas lantejoiladas, duas boas trutas palmeiras». Aliás, não era só ali. Próximo, em São Lourenço de Cebrão, também há «uma ribeira que é a mãe das trutas».

Como se isso não bastasse, mais tarde, outro fidalgo, D. Telmo Montenegro Iraizoz e Valadares, senhor de Salvaterra Y Moz, criou viveiros de trutas. «Cultivava-os para que aquela água fosse mais um poceirão cristalino, inane e deserto, uma rã coaxava, soberana e reinante. Para que se tornasse um mundo vivo, colorido e na escala de seu fausto senhorial. Havia deleite maior», interroga Aquilino, «que contemplar as trutas do deflúvio matutino, com a água do córrego a cair do batedoiro dos seixos, oxigenada da frescura do orvalho e do azul do céu?!»

Da abundância das águas resultou, nessa «terra que nem unto», um revestimento florestal exuberante. O fundador já era da opinião - assegurou Aquilino - que «propriedade sem árvores é como uma mulher sem cabeleira», para comentar, de imediato, que o padre Gonçalo da Cunha «apreciava todas as luxúrias, a começar pela frondosidade na fêmea e nas antas».

Multiplicaram-se «as rolas nas corutas dos pinheiros» e as lebres corriam «nas circunvoluções dos outeiros debaixo do céu lavado». Passou a guarnecer «os contornos do regadio, a vinha de espaldeira e enforcado».

A Casa Grande de Romarigães ostentava, ainda, uma «facúndia tropical», «a inspiração luxuriosa, tipo indiático dos templos consagrados a deusas que tinham infinitos braços para abraçar voluptuosamente o mundo e infinitas tetas para darem a mamar o leite da paz e conformidades.

Dominava todo este espaço uma fertilidade extraordinária. Ao pé da casa, o fidalgo galego renovou o espigueiro, a fim de arrecadar «alqueires e alqueires de maçarocas».

Ficou a ser mais uma obra imponente. «Chapelão de larga aba, soleira de granito, tão grande que não haverá maior na frumentosa comarca interamundense, lá está com os seus trinta metros de comprimento, lauto e garboso, verdadeiro templo de Ceres.»

O plasma da criação de Aquilino emanava da Beira Alta, das terras montesinas que fitam as serras da Estrela e do Caramulo e as cernelhas do Douro e do Marão. Mas, na década de 50, ao conhecer o Minho, fascinou-se com o universo rural de Paredes de Coura, donde extraiu, no emaranhado genealógico do solar dos Menezes e Montenegros (herdado por sua mulher), toda a efabulação pícara da Casa Grande de Romarigães.

Neste fim-de-semana, em terras do Alto Minho, releio outra vez (não sei quantas, já perdi a conta) este livro admirável que, felizmente, é texto obrigatório em muitas escolas do País.

Sucessivas gerações de jovens vão-se inteirando da criação literária de um dos escritores que melhor soube descobrir e aprofundar as raízes de Portugal. Muito mais do que as comemorações oficiais e os estudos de críticos literários, o contacto directo dos jovens com a obra de Aquilino assegura-lhe a continuidade no tempo e na memória colectiva.

© 1998 Diário de Notícias

 

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