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                  O quinteto da Beira

                               António Valdemar
 

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Até ao fim de uma vida intensamente vivida, Aquilino Ribeiro manteve-se ligado ao universo rural da Beira Alta, onde nasceu, cresceu e se tornou (de acordo com as suas palavras) «são e escorreito de corpo e espírito». Nem a permanência, alguns anos, em Paris nem meio século de Lisboa o afastaram das origens, homem da serra dos pés à cabeça, por dentro e por fora, «sem febre nem desejos metafísicos, como o mais néscio e regalão dos regalões». (Abóboras no Telhado.)

Deixou o livro de memórias Um Escritor Confessa-Se. Todavia, a infância e a adolescência na Beira Alta revivem, com mais pitoresco e nitidez, nos romances Cinco Réis de Gente, Uma Luz ao longe e Via Sinuosa. O mesmo cenário se depara, por exemplo, nas Terras do Demo e na Estrada de Santiago, em cuja primeira edição surgiu o Malhadinhas.

No entanto, Aquilino Ribeiro condensou muito mais elementos em que se conjugam a geografia, a história e a antropologia numa série de livros que costumo chamar «o quintento da Beira Alta»: Os Avós dos Nossos Avós (l943); Aldeia (l946); Geografia Sentimental (l95l); Arcas Encoiradas (l953), e O Homem da Nave (l954). Aqui se depara tudo quanto define os usos e tradições dos habitantes da serra desde épocas remotas até às primeiras décadas deste século, quando se abrem estradas e se introduzem meios de transporte que vão do caminho de ferro até ao automóvel. Testemunho deste quotidiano era o Malhadinhas, o almocreve que se incumbira de estabelecer as comunicações entre o interior e o litoral, o campo e a cidade, levando e trazendo muitos produtos essenciais do comércio regional.

Observava, em 1946, Aquilino: «Antes da estrada, que ligou a aldeia à vila e, por tabela, à capital do País e às capitais da Europa, o que sucedeu há menos de meio século, a aldeia estava mais perto da citânia que de um aglomerado rústico que se preze.» (Aldeia.)

«Se alguma coisa, nos derradeiros tempos, veio modificar a filosofia da aldeia», explica depois, «foi a camioneta (... ) A camioneta da carreira trouxe à província com tonus novo um sopro de modernidade, de progresso, digamos, que não deixou de abalar até os fundamentos a sua sediça estagnação.» (Aldeia.)

Desde então houve uma transformação radical. Extinguiu-se o velho mundo rústico, que Aquilino resumia nestes termos: «A fazendinha de regadio produzia-lhe o linho de que fazia os lençóis, a camisa, os sacos, as calças de Verão e até a mortalha. As ovelhas davam-lhe a lã de que urdia o burel em que talhava a andaina, capucha, barrete e meiotes. Este burel, batido nos pisões, com mais pisadura ou menos pisadura, adaptava-se aos diferentes graus da sua necessidade: impermeável para a chuva; leve para as festas; rala - a chamada serguilha - para aventais; entretecido com trapo, para mantas da cama. Noutros tempos eram os pastores que confeccionavam os botões, recortando-os no chifre, atrás do gado. À parte as brochas para os tamancos e o cabedal para as encoiras, o serrano estava-se marimbando para o filibusteiro. Que mais precisava ele? Não precisava de remédios, e se adoecia era tratado pelos simples à maneira dos lusitanos.» (Arcas Encoiradas.)

Passaram a ser diferentes a habitação, o modo de vida, em especial o vestuário e a alimentação. Num primeiro ciclo utiliza-se o petróleo, para a iluminação e para a gastronomia; veio depois a electricidade e com ela os frigoríficos, que deram lugar a um novo processo de conservação dos alimentos, que permaneciam no fumeiro e na salgadeira. A botija de gás terá um papel decisivo na mudança.

Isto ficou registado por Aquilino. Um sentimento de melancolia acompanha as anotações do escritor. Entende que «a memória poética do beirão, que era vasta como a de Xerazade, vai-se tornando chão salgado». (Arcas Encoiradas.)

Perante o aparecimento da rádio, deplora a alteração sofrida na música e nas danças regionais. «já não se fala», adverte, «no fandango trancosano, mais faceto, embora menos repicado, que o parente de Castela-a-Velha. Mais duas gerações, e a chula, se não lhe acodem, terá passado do terreiro à Emissora, que é como quem diz à história em despeito da riqueza coreográfica. Tanto os seus variadíssimos lances como a música eram do mais ágil e airoso sainete que inventou um génio desenfastiado.» (Arcas Encoiradas.)

Também se preocupou com a degeneração na linguagem. A fala do beirão, para Aquilino, passou à «categoria de plesiossauros», palavra que significa «enorme réptil da fauna fóssil do Mesozóico». (Cândido de Figueiredo, vol. II, pág. 2008.)

Aquilino convenceu-se e vaticinou que a linguagem da Beira «acabará por extinguir-se, desbotar-se e converter-se no idioma pilho, compósito, que para aí se fala, e se tornou oficial mediante a cumplicidade da ciência lexicológica». Enquanto lamenta o facto, ergue um louvor à «língua viva, buliçosa e branca como a água que sai da rocha, que deve entroncar em Fernão Lopes, passando por cima dos renascentistas, trabalhadores ao torno, e de toda esta casta de literatos que se venderam à francesia. É cheia de expressões breves e directas admiráveis quanto a traduzir movimento, cor, estados de alma». (Arcas Encoiradas.)

Entre as sucessivas mudanças, Aquilino enumera a culinária, que também está a ser «abastardada». Depois de interrogações nostálgicas, exalta iguarias da Beira Alta. «Aqui e além», acentua, «subsistem vagas amostras de uma gastronomia cultivada por mãos pacientes e entendimentos claros, requisitos indispensáveis em arte tão substancial quanto à conservação do indivíduo e seu regalo: os fálgaros da Tabosa, as cavacas de Freixino, os doces da Teixeira, etc. O beirão põe orgulho em ser bom garfo; jantar que dignifique anfitrião e convidados tem de acabar na dispepsia. O cabrito assado no forno é a peça de honra no Norte da província; nos arredores de Viseu, o leitão. Morcelas, farinheiras, moiros, moiras, marrã frescal, torresmos são, à parte, a receita comum, modos particulares, locais, de temperar o porco com beneplácito do bispo.» (Arcas Encoiradas.)

Imagem viva do homem sensual e do epicurista inveterado. Memória e reencontro na paisagem natural com metamorfoses surpreendentes. Beira Alta antiquíssima e idêntica. Sempre igual e sempre diferente.

 © 1998 Diário de Notícias
 

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